8.8.10

Para maiores de 120 anos


Sei que hoje é um dia, mas não sei que dia é hoje: quanto o tempo andou desde o momento em que perdi meu relógio e fiquei aprendendo o sol, que nem sempre aparece, mas nunca desaparece pra sempre? Estrela que tem os ponteiros voltados para a imensidão de qualquer momento. E o que é que acontece quando se acaba a vida de aventuras e a vida pacata, quando se chega ao fim à intimidade do abrir de olhos em um dia de chuva que depois se abre em luz? Há momentos que passam, todos os momentos passam, mas há lembranças que por mais que se desgastem não desaparecem, essas são como o sol. Milhares de pessoas passarão pelas vidas de milhares de outras pessoas, sendo que umas ficarão e outras partirão. O tempo se encarrega de levar aparentemente tudo, até mesmo si próprio, mas sempre deixa um vestígio, que pode ser o de que o que foi felicidade não se pode ser esquecido. Mas o tempo não é inimigo, mesmo quando deixa a vida parecendo um arco-íris em preto e branco com um pote de ouro trancado à sete chaves no fim do longo caminho. O tempo só trabalha em função da vida, que tem validade, porém suplica ser bem vivida. O tempo não é esquecimento, é lembrança, é verdade. A verdade mais duradoura do tempo é a felicidade, que se estende no pequeno instante de um sorriso de alguém que se ama, que se chama... de amor.

26.1.10

Perro

Certa vez observava um perro que andava pela calle, com sua pata esquerda machucada. Não havia sangue. Conforme ele andava era possível sentir sua dor aumentar pelo apertar de seus olhos, contudo ele não parava, ao menos sinalizava desistência. Até que ao atravessar a calle, do lado esquerdo para o lado direito, um coche o atropelou. Havia muito sangue. O coche não parou nem antes, nem depois. O perro morreu. Talvez, não soubesse que aquilo o pudesse levar a morte, muito menos que pudesse morrer um dia, nem mesmo por instinto saber o que era a morte. O perro aparentava um instinto invencível dentro de si, porém vencer a espécie de seu melhor amigo, às vezes vilão, morotizado, não era tão fácil.
Nunca soube se aquele animal tinha nome, mas soube que por seus movimentos ele não tinha mais dono. O que aprendi com o perro é que se pode escolher aquilo que se será. É claro que um perro é só um perro, com um repertório limitado de escolhas. Mas um hombre também é só um hombre, e muitas vezes suas escolhas parecem ser bem menores do que bem maiores do que a de um perro. É óbvio que o cérebro do perro não possui tantas conexões complexas como o de um hombre, ao ponto de fazer com que consiga realizar transformações tão grandes em seu ambiente natural como um Hombre de inteligência comum realiza, levando-o a escolher seu destino a longo prazo. Todavia o cérebro do hombre às vezes também é enganado pelo cérebro do destino.
Consegui abstrair algo daquela experiência. É possível escolher quem seremos no minuto seguinte, mesmo quando a escolha é limitada pelo fato, mesmo quando ela nos leva a consequências trágicas, mesmo quando ainda com a mudança continuamos o mesmo e não mudamos nada. Claro que não é uma conclusão tão inédita, e que é, na verdade, tão velha quanto quem a formulou nos séculos passados, a seu modo que não do meu. Mas ainda sim é importante observar as manifestações que ocorrem a nossa volta, e captar não o que elas querem, mas o que elas podem dizer.
O perro poderia continuar do mesmo lado da calle, mas atravessou, poderia parar e esperar seu machucado sarar, mas continuou. O hombre poderia ter prestado mais atenção e freiado seu coche no devido momento, ou poderia nem ter saído de coche naquele dia, ou então nem ter comprado aquele coche. Por mais que o perro não soubesse de nada e agisse por instinto, ele sabia de algumas coisas, que da maneira dele, só ele vivenciara. Do mesmo modo que o hombre foi embora com seus medos sem freiar seu coche. Do mesmo modo que o coche levou consigo os danos do impacto.Nunca se sabe qual será o resultado de uma próxima escolha, não é mesmo?

3.6.09

Lynchiano




Quem é?

Ela não diz o nome, dá dois passos de volta com os olhos bem abertos - desperta mistério, mas tem medo. Do que se esconde mesmo querendo sabê-lo?

Quem é?

Talvez não seja ninguém! Só o vento respirando... (Destranca a porta) (Abre a porta) ( Mira)

Você?

A cara assustada continua, o que acontece não é, até então, descoberto nem mesmo por ela, a dona da cara. O corredor é extremamente escuro.

E-u!

Não está calma, mesmo! O corredor é realmente muito escuro!

Você não está calma, está?

Respira fundo e tenta fingir que está, ou só porque está mais calma mesmo! O fato é que respira tão profundamente que sente-se o sopro quente de ar saindo de seus pulmões e exalando por todo o corredor.

Mas estou aqui!

Um charuto é aceso dando luz ao corredor úmido.

Não precisa estar aqui, precisa estar calma! fuma ainda? Aceita um?

Ela começa a suar discretamente, porém sua pele deda o frio do ambiente.

Nun...ca pareço estar bem, ou calma, por isso sempre pareço ser fumante!

A fumaça do charuto começa a subir.

Não se desespere! Tenho algo pra você que não se parece com um charuto (Apaga o charuto, o joga no chão) entre!

A sala é bem aquecida pelo aquecedor elétrico que mais parece a lenha (sentam-se no sofá) o frio desaparece, o climax continua!

O que tem pra mim?

Liga o som, serve um drink ( Parece Uisque), apanha uma pequena caixa de coloração preta e entrega-lhe!

Toma!

Os olhos dela se arregalam!

Devo?

É claro!

Ela abre, olha, chora e sorri ao mesmo tempo... parece ser um, parece um.. parece... um par de sapatos? Porra meu, que sacanagem!CORTA!




18.9.08

( na foto: Tom Waits)

Sim, tu te tornaste um idealista por natureza.
E agora diga com todas as letras:

- eu? Não!

13.4.08

Sem mim


-
Quando cheguei ao local não demorei a entrar, logo vi que estavam todos me olhando de uma maneira diferente, passei as mãos sobre a face, fechei os olhos por um momento, e todos haviam desaparecido, me toquei e percebi que eu ainda estava lá. Pensei que eu pudesse ter ido mal vestido, conclui, breve, que se quer havia intervindo no fato de ela ter ido antes de mim. Depois procurei as pessoas por todos os cantos e só haviam fundos e fundos conhecidos. Eu ainda estava em casa, ela não, já havia saído. Eu logo reconsiderei o convite, corri quintal portão rua, e, é, ela já havia mesmo saído. Após retornar, pingando suor, o chuveiro estava ligado, corri pra desligá-lo, ela ainda estava no banho! Respirei aliviado e fui me trocar, vesti-me de maneira casual, cruzei o corredor ainda exalando perfume, o suor havia desaparecido, o chuveiro desligado, e sobre a mesa descansavam panelas com comida destampadas e um bilhete: já saí, quando você chegar, coma, e dê comida aos cachorros. Ah, e se arrume. Descobri que eu nem havia chegado, se quer saído, de fato estava muito ansioso. Eu me trocara pra sair. Fiquei tranqüilo, tomei um banho e saí, quando cheguei não demorei a entrar, logo vi que estavam todos me olhando de uma maneira diferente, passei as mãos sobre a face, fechei os olhos por um momento, e todos haviam desaparecido, me toquei e percebi que ainda estava lá. Imaginei que estivesse atrasado, olhei o relógio que estava sem bateria, os ponteiros estavam preguiçosos, e saí correndo pra casa - ela ficaria bravissima comigo, pois, tínhamos uma festa. Quando cheguei, pingando suor, ela nem estava mais em casa, já havia saído, fui tomar um banho e lembrei que era meu horário, então ela nem chegara ainda, respirei aliviado. Terminei o banho e ouvi a campainha tocar, fui correndo atender, mas não era ninguém, já estava novamente suado, tomei um banho. Após isso fui à sala, exalando o perfume pelos corredores, e apertei o botão das mensagens da secretária eletrônica; era a voz dela: oi, chego logo, não esqueça de sair pra comprar ração pros cachorros e vinho. Atravessei o corredor e passei pela cozinha, sobre a mesa havia um prato com restos de arroz. Saí pra comprar o vinho antes que ela chegasse. Quando cheguei ao local não demorei a entrar, logo vi que estavam todos me olhando de uma maneira diferente, passei as mãos sobre a face, fechei os olhos por um momento, e todos haviam desaparecido, me toquei e percebi que eu ainda estava lá. Achei que estava muito calmo, e senti a sensação de que as coisas estavam se repetindo, de que o tempo estava circular, e de que eu me enxergava extremamente auto-referencial. Eu precisava de mais ânimo para ir a festa com ela, de mais aptidão com as palavras, e de sorte com os momentos, e então saí em disparada sem apertar muito o passo. Quando cheguei em casa, pingando suor, toquei a campainha, mas ninguém atendeu, eu esquecera a chave na sala e ela ainda não havia chegado. Esperei, esperei, e nada de ela aparecer, imaginei que ela já havia chegado, se arrumado, e saído, pensando que eu não fosse. Veio-me também a idéia de que eu pudesse ser uma contradição, de que só corria até o momento perdido, buscando algo que não poderia viver. Fiquei na calçada, desanimado, abri a garrafa de vinho, tomei quase toda, e comecei a fuçar a carteira. Depois de uns segundos achei o convite da festa, era um convite individual, simples, tive um refluxo contido, tomei a direção que estava escrita, suava, apertado em espectativas. Quando cheguei ao local não sabia se entrava ou não, demorei uns trinta minutos só pra decidir - eu era mesmo uma contradição - depois entrei e ninguém me olhava, nem me reconhecia, fechei os olhos por um momento, e todos ainda estavam lá, me toquei e percebi que eu é que não havia ido.

15.3.08

F5


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Certa vez tomei um táxi,
não sei, ao certo, de qual lugar eu vinha.
A motorista era colombiano, falava um portunhol esquisito.
Eu me senti em ‘pulp fiction’e puxei um papo.
Ele ascendeu um cigarro, perguntou de onde eu vinha.
Disse-lhe o lugar e ela comentou que já havia levado alguém lá.
Perguntou então se eu fumava,
respondi-lhe que às vezes, mas que não queria naquele momento,
pois não estava eufórico por ter matado um lutador de boxe.
Ele não entendeu, eu estava me achando o próprio Butch.

Quando ela parou o carro não quis me cobrar à corrida,
eu indaguei do por quê?
Ele retrucou que era pelo fato de ter fumado sem me pedir permissão,
eu lhe dei os 12 reais da corrida, pedi-lhe um cigarro.
Ela pegou o dinheiro e se foi satisfeito, mas o cigarro era muito amargo, ruim que cortava a goela.
Joguei-o na valeta, escorreu pela vala de lama e água da chuva, caiu no bueiro.
Naquela noite não entrei em casa, dormi na rua. Naquela noite quis fazer um filme, ser uma espécie de D. Corleone versão remasterizada, parar de fumar sem ser fumante, tomar uns tragos de vodca, andar durante a noite, a madrugada.

No outro dia, minha mãe me ligava feito louca pra saber onde eu estava, mas eu não estava mais, tinha achado o buraco de minhoca num cesto de lixo, através de um wormhole, e entrado: viajei oito anos pro futuro, e virei taxista na Colômbia.



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